Ele estava sumido há 3 meses. Desapareceu
exatamente na tarde de um domingo dia 17 de agosto por volta das 16 horas
onde, desnorteado pelo que sucedera resolveu se afastar dos tabuleiros por um
tempo e avaliar seus conceitos. O personagem em questão é ninguém menos que
Sixto Corbo Barreto, um intrépido e não menos irreverente enxadrista que se
compara a Deus e recentemente cognominado como "El Diablo!" Sixto, naquela
ocasião fora destronado pelo campeão gaúcho de xadrez Allan Gattas pelo placar
de 12,5 a 2,5 num confronto de 15 partidas.
Tarde quente. Pouca gente na
rua. Pela rua Anollés não passava nenhuma alma viva - de repente como se
tivesse surgido do nada, na curva da esquina ouviam-se vozes, muito ruído e até
som em alto brado. Como era domingo qualquer barulho, por mais sucinto que fosse
despertava a atenção. Aos poucos foram encostando na frente do clube Sarandi
Universitário, um dois,três - enfim diversos carros. Placas de Rivera, Sant'Ana
do Livramento, Manuel Vianna, Melo e diversos de Bagé. O gente Flaco
Eduardo Melo não escondeu seu espanto. Jamais imaginara que um simples torneio
comemorativo do clube fosse capaz de atrair tamanha multidão. Não tardou para
ligar para diretor de esportes Diego Pelaez para que providenciasse logo as
pizzas, água mineral e refrigerantes. A comemoração do aniversário do clube
tinha que ser compatível com a organização que o Bobby Fischer Xadrez Clube
estava montando - com direito a telão multimídia para a transmissão das
rodadas e até hino nacional uruguaio na abertura.
Talvez tenha sido esse último detalhe
que encorajou Sixto a participar. Ele estava taciturno, estrategicamente
observando tudo a uma distância segura. Acontece que o hino
mexeu com seu brio de uruguaio, ferveu seu sangue e não se conteve - resolveu
sair das sombras e encarar todos aqueles jogadores que um dia, não muito
distante, foram seus leais súditos. Com um sorriso amarelo e totalmente
desacorçoado Sixto adentrou na cantina. Foi saudado como se nada de ruim
ocorrera em seu passado. Se sentiu bem. "el Diablo" estava de volta à
ativa.
Demorou para que ele chegasse na cobiçada
mesa 1. Jogou na zona intermediária durante 3/4 do torneio. Até que o
inevitável aconteceu. Se enfrentariam os dois únicos postulantes ao título - ele
contra ninguém menos que Nilo Cruxen. Ambos com 3 vitórias, na quarta rodada
seria uma final de campeonato antecipada, caso isso houvesse no xadrez. Só que
este é o único dos esportes que os confrontos se dão por um sistema de
emparceiramento que é perfeito até no nome - Swiss Perfect. Um programa da
federação internacional que normatiza e unifica o xadrez nos quatro cantos do
mundo.
Todas as atenções estavam voltadas a esta
mesa. Dali provavelmente sairia o campeão. Ambos jogaram muito. Forçaram,
tentaram ganhar colunas, diagonais, colocar seus cavalos estrategicamente no
centro do tabuleiro. Uma verdadeira batalha entre dois gênios do xadrez na
fronteira. "El Diablo" contra o bom e velho "Cacetada" - num embate de muita
estratégia e jogadas geniais. O público não se conteve e literalmente
sufocou e cercou a mesa 1. Todos queriam ver, aprender e sentir o quão mágico é
este esporte. Só que as forças eram tão compatíveis que, por mais paradoxal
que pareça - chegaram ao cúmulo dos extremos de se anularem. O resultado
disso é o empate. Só que esse resultado foi muito ruim para ambos, pois - se
implantara neste evento a nova regra experimental do xadrez que premia com 3,0
pontos as vitórias e só 0,5 os empates.
Última rodada. Nilo seguiu na mesa 1
e Corbo foi para 2. Nesta altura dos acontecimentos a descoberta
mágica aconteceu e encantou a todos. O que gerara desconfiança no início
com adoção desta nova regra de pontos teve ampla aprovação. Antes, segundo se
jogava, jamais se registrou tamanha equivalência de forças na classificação.
Tanto isso é verdade que oito jogadores poderiam ser campeão, dependendo apenas
de seus resultados contra adversários diretos. Bastaria que vencessem. Em melhor
posição estava Cruxen, mas as energias despendidas contra Sixto foram demais e
não conseguiu manter o mesmo nível de concentração. Mal pode se segurar diante
Emílio Mansur. Ainda conseguiu um empate heróico mostrando que ainda
é o "paulistinha" de sempre.
Sixto não teve a vida lá muito mais
facilitada. Se engana aquele que pensar que os mestres só jogam na mesa 1.
Jogando no comando das peças negras ele teve diante de si um jovem e não menos
veterano no xadrez. Francisco Munhoz que provou que seus 2112 pontos de rating
não foram facilmente conquistados. Teve a partida na mão diversas vezes. Com
dois peões de vantagem e posição favorável Munhoz só não tinha uma coisa
que é valiosa nas competições de xadrez: tempo. Seu relógio estava por zerar e
explorar o tempo alheio Sixto é mestre. Venceu, mas Francisco não ficou
triste com esta derrota não lá muito convincente. Munhoz obtivera outras
vitórias - o de voltar a jogar depois de anos e ver seus alunos do Liceu 1
e Liceu 2 de Rivera estrearem num torneio deste nível e ainda serem
premiados em suas respectivas categorias.
Após várias horas de intensos confrontos -
o empate entre Nilo e Mansur na última rodada combinado com resultados
paralelos culminou com a vitória relativamente tranqüila do jogador que não
pouca auto-elogios. Édipo é fichinha perto dele - Sixto voltou a cognominar o
deus do xadrez na fronteira. Isso pelo menos até quando Allan Gattas não resolva
dar uma passeada por aqui para ver como estão seus grandes amigos do Bobby
Fischer Xadrez Clube. A classificação geral foi a seguinte:
Place
Name
Feder Loc Id Rtg Loc
Club
Score Wins Progr. M-Buch. Buch. Berg. Rtg Sum
1 Sixto
Corbo,
Montevidéu 2047 Bobby Fischer Xadrez Clube
12.5 4 40.0 27.0
43.0 104.00 0
2
J.J.Silva,
Bagé 2006 Bagé
Xadrez Clube
12 4 39.0
24.5 41.0 99.00 0
3 Inácio
Marrero,
Bagé 1852 Bagé
Xadrez Clube
12 4 36.0
27.0 43.5 99.00 0
4 Nilo
Cruxen,
Livramento 2112 Bobby Fischer Xadrez Clube
10 3 37.5
27.5 49.0 92.00 0
5 Emílio
Mansur,
Bagé 2064 Bagé
Xadrez Clube
9.5 3 30.5
25.0 43.0 77.00 0
6 Francisco Munhoz,
Rivera 2112 Bobby Fischer
Xadrez Clube 9 3
30.0 27.0 45.5
63.00 0
7 Elias
Cardozo,
Livramento 1900 Bobby Fischer Xadrez Clube
9 3 30.0
25.0 40.0 54.00 0
8 Luis
Goulart,
Bagé 1854 Bagé
Xadrez Clube
9 3 30.0
24.5 36.0 55.50 0
9 Luciano
Godoy,
Bagé 1851 Bagé
Xadrez Clube
9 3 30.0
22.5 39.5 63.00
0
10 Eduardo
Melo,
Rivera 1700 Sarandi
Universitário
9 3 27.0
25.0 41.5 63.00
0
11 Diego
Pelaez,
Rivera 1960 Sarandi
Universitário
9 3 27.0
21.0 39.0 54.00
0
12 Alberto
Silveira,
Bagé 1937 Bagé
Xadrez Clube
9 3 27.0
19.5 33.5 45.00
0
13 Geovave
Vargas,
Livramento 1500 Hector
Acosta
6 2 18.0
22.5 39.0 36.00
0
14 Fabian
Cardozo,
Montevidéu 1700 Sarandi
Universitário
6 2 18.0
21.5 35.5 18.00
0
15 Alcides
Paz,
Livramento 1500 Bobby Fischer Xadrez Clube
6 2 18.0
19.5 31.5 27.00
0
16 Denilson
Belmonte,
Livramento 1500 Bobby Fischer Xadrez Clube
6 2 15.0
19.5 30.5 27.00
0
17 Luciana
Mendez,
Rivera 1500 Liceu
1
6 2 15.0
19.5 30.0 18.00
0
18 Josué
Braz,
Livramento 1500 Rivadávia
Corrêa
6 1 21.0
25.5 43.5 18.00
0
19 Cristian
Sampaio,
Livramento 1500 N.Senhora
Livramento
6 1 15.0
22.5 34.5 9.00
0
20 Douglas
Silva,
Livramento 1500 N.Senhora
Livramento
6 1 12.0
19.5 33.0 9.00
0
21 Jhonatan
Castaño,
Rivera 1500 Liceu
2
3 1
9.0 16.5 27.0
9.00 0
22 Federico
Pereira,
Rivera 1500 Liceu
2
3 0
6.0 19.5 33.0
0.00 0
23 Marcelo
Lotito,
Rivera 1500 Liceu
2
3 0
3.0 19.5 31.5
0.00 0
24 Tiago
Braz,
Livramento 1700 Bobby Fischer Xadrez Clube
0 0
0.0 0.0 0.0
0.00 0